Matriarcado: em busca das origens

“Quando nos deixamos guiar pela felicidade, nos posicionamos num tipo de caminho que sempre esteve ali, à nossa espera, e vivemos exatamente a vida que deveríamos estar vivendo.”
Joseph Campbell

As antigas tradições culturais que reconheciam a existência de uma Deusa estavam pré-dispostas a determinadas concepções de mundo que continham múltiplas similaridades entre si. Algumas sociedades chegaram a não conhecer-se entre si. Mas o que, da fato, levou a essas tradições milenares, sobreviverem durante um grande período de tempo, estabelecerem alianças e compartilhamentos de crenças, valores e comportamentos?

No período que chamamos de Neolítico, com a recém iniciada “revolução agrícola”, o papel que as antigas sociedades propunham estabelecer um sistema social baseado na hierarquia não autoritária na figura de um Senhor, Deus, Pai ou Sacerdote, fez com que se gerasse uma cultura voltada a outras formas de relacionar-se com a sociedade e consigo.

Portanto, com a evolução da tecnologia, o início da escrita, as primeiras construções de cidades, pode-se perceber que a expansão cultural proporcionada pelas sociedades matriarcais, desempenhou um avanço nas transformações futuras.

O Poder Cósmico do Matriarcado

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Mãe Terra, Deusa Mãe, Grande Deusa, ou simplesmente… Mãe. Esse eram os termos usados por toda a antiguidade e representados sob a figura de uma divindade feminina, geralmente opulenta, significando os aspectos da vida, da fertilidade e da natureza. Como personificação sagrada do Universo, ela representava também toda a vida criada, tanto no aspecto macrocósmico quanto microcósmico.

Na terra, ela era cultuada como aquela que deu luz à agricultura e à permanência da vida social em contraposição ao antigo modo de vida nômade e caçador. Com o advento da agricultura, grandes cidades emergiram, assim como a linguagem e a escrita. Na Suméria, a deusa Nidaba é considerada a criadora da escrita cuneiforme, a mais antiga datada na humanidade.

O Poder Terreno do Matriarcado

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Autores como James Frazer (de “A Rama Dourada”), Robert Graves (“O Grande Livro dos Mitos”), e André von Lysebeth (“Tantra: o Culto da Feminilidade”), defendem a teoria de que toda a região alpino-mediterrânea que se estendia da Europa mediterrânea, África, Oriente Médio, Índia e China – ou seja, toda a grande área dos vales férteis, crescentes, zonas temperadas -, formou-se a partir de uma cultura com elementos em comum, como o culto central às divindades femininas, a matrilinearidade, sociedades guerreiras mas não expansionistas, etc.

Esse sistema, que predominou durante milênios, herdou das trocas culturais entre os povos do neolítico e paleolítico tardio onde coexistiam os pré-indo-europeus.

A descoberta das cidades mais antigas do mundo: herança matriarcal

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Vemos, por exemplo, no sítio arqueológico de Chatal hüyük, na região da Anatólia, na Turquia, os registros do culto à deusa mãe que datam de aproximadamente 6700 a.C. Nessa época, o nascimento da religião coincide com o culto às mães divinizadas e à expansão tecnológica da agricultura. O culto ao vermelho ocre tinha relação ao aspecto menstrual do sangue, símbolo do poder de gerar a vida.

Nas cavernas de Cro-Magnon na França, revelam como o mito da criação dava-se no imaginário cultural de seus entes, retratando nas conchas coloridas com pigmentos ocre, as imagens do nascimento. Foram encontradas em milhares de cavernas por toda a antiga Europa e Oriente Médio, estatuetas e dólmens (arquiteturas de pedra) associando às progenitoras, as chamadas “estátuas de Vênus.”

Praticamente, todo o período conhecido como Neolítico está intimamente relacionado com o início da “nossa história escrita”, seguindo a linha reta dos processos históricos. Mas, se levarmos em conta que o Homo Neanderthalensis, que viveu entre 230.000 até 28.000 anos atrás, estava culturalmente integrado com as relações simbólicas de cerimônias funerárias (com os achados nas Covas de Châtelperron, França), religiosas, e até mesmo linguísticas, como como apontam as última descobertas arqueológicas.

Enquanto o Homo Sapiens saía da África, onde migrou entre 100.000 e 60.000 anos para expandir-se pelo resto do planeta, sítios como da Caverna de Nerja reúne o que se ponde considerar como as pinturas mais antigas da humanidade, feita pelos neandertais.

As Deusas-Mãe

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Akure – cidade nigeriana reconhecida como uma das mais antigas da África, fundada pela etnia yorubá, cujas inscrições podem indicar o período Mesolítico ou 12.000 anos atrás. O folclore local faz menção à mitologia de Oduduwa, descendente das crianças Oduduwa, ou seja, as progenitoras do mundo.

Nevali Chori – antigo sítio do neolítico ao leste da Turquia onde se encontram os mais antigos templos já reconhecidos, assim como pelas suas esculturas femininas, datando há mais de 10 mil anos. É considerado o assentamento humano completo mais antigo no mundo.

Milos – pequena ilha vulcânica situada no Mar Egeu Grego, tornando-se famosa pela descoberta da estátua de Afrodite (ou a “Vênus de Milo”), cuja cultura é datada há mais de 9 mil anos.

Chatal Huyuk – grande assentamento neolítico na Anatólia, datado de 6.700 a.C. Esta cidade é considerada a mais antiga no mundo, por apresentar um estágio cultural elevado, com construções e projetos urbanísticos sofisticados. O aspecto mais importante em Chatal Huyuk é a existência dentro das casas de inúmeras estatuetas femininas e locais de adoração da Deusa. Mesmo possuindo a figura de uma divindade masculina, na forma de chifres, são as estatuetas femininas que estão em número muito maior. Chatal Huyuk é considerada a primeira cidade onde o Tantra (sistema filosófico matriarcal) surgiu.

Exemplos de deusas mães

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Eurínome: em princípio era considerada o protótipo da Deusa quando ainda o povo que habitava a Grécia em tempos pré-históricos até a chegada do patriarcado com o culto de Zeus.

Tiamat: na tradição suméria que equivalia a Ishtar (Babilônia), Ninsuna (Caldeia), Astarte (Fenícia) e Afrodite (Grécia).

Joro: Deusa nórdica da Idade de Bronze, equivalente a Freya da mitologia nórdica posterior.

Culto feminino grego: nas culturas gregas do Egeu, Anatólia, Minoica, Amazonas e no antigo Oriente Próximo, equivalente a Gea e Artemis (Grécia), Cibeles ou Magna Mater (Roma). Além das representações femininas de Hera e Deméter.

Culto feminino africano: Iemanjá, Oxum, Iansã e outras deusas mães como as antigas Iyami que compunham o sistema yorubá ainda presente no candomblé no Brasil. No Antigo Egito, o matriarcado sub-existiu na figura da Rainha e nas inúmeras deusas, tais como  Ísis, Nut, Hathor, Bastet, Maat e Sekhmet.

Elam: a cultura elamita é considerada como umas das mais desenvolvidas da antiguidade e também considerada matriarcal.

Celtas e etruscos: as mulheres e divindades dessas tradições detinham um status social ou igual ou superior aos homens, tanto para assuntos bélicos, quanto para os de ordem religiosa.

América do Sul: as icamiabas eram índias que ocupavam a região próxima ao rio Amazonas, cujo confronto que se deu com as tropas espanholas gerou inúmeras lendas.

O resgate e renascimento do Feminino

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Ela possui infinitos aspectos e muitos nomes ao longo da história da humanidade. A realidade da vida e da morte é retratada geralmente por ela através de metáforas e simbologias. A ideia de um poder onipresente materializado na natureza e no universo, para muitos povos representou a própria realidade, o mistério da vida em si, em cada átomo.

Atualmente, com os movimentos de libertação, os ativismos sociais e o empoderamento de mulheres, ajudam a estimular os aspectos íntimos da natureza humana, em homens e mulheres, e revela o sentido da renovação, a natureza cíclica do despertar de consciência. Desde o crepúsculo das tradições da Deusa, a humanidade vem sofrendo ao longo do tempo, rígidos e autoritários modelos de sistemas sociais e religiosos que não atendem mais às necessidades e experiências acumuladas.

Hoje, as mulheres não se encorajam a explorar por sua própria vontade a sua realização, a não ser quando são submetidas às autoridades e verdades masculinas. Ambos são vítimas de um sistema baseado nos valores patriarcais de dominação. Os homens, sem o saber, reproduzem e privilegiam-se desta normativa. A partir da inversão e da consciência da multiplicidade, não do dogma, que o patriarcado, terá, pelos mecanismos de percepção, uma rejeição e desestruturação.

Em seu lugar comum, uma nova estrutura, uma nova sociedade. Para as antigas tradições, a

“Deusa não governa o mundo; ela é o mundo. Presente em cada um de nós, cada indivíduo pode conhecê-la interiormente, em toda a sua magnífica diversidade. Ela não legitima o governo de um sexo pelo outro e não cede autoridade a governantes.” (Starhawk)

É através da Deusa que nós poderemos descobrir as nossas capacidades e adiantar os processos de compreensão e entendimento da realidade.

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Neurocientista, pesquisador e estudioso do Comportamento Humano.
Especialista em Medicina Comportamental pela Escola Paulista de Medicina (EPM)/Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)